sábado, 27 de outubro de 2012


         Prometi que escreveria. Mas na verdade não sei sobre o que escrevo. Nem para quem, nem coisa alguma. A verdade é que não sei mais fazer.
          Até me disseram por aí que a solidão faz bem pra criatividade. E eu acreditei. Mas estou aqui, na solidão mais só que já vivi e nada. É claro que não quero me fazer de vítima, mas porque não me disseram que não adiantaria só estar só? Agora que tudo se foi... E pior: se foi depois de eu pedir que fosse porque eu não queria ver o mundo, não queria ver ninguém: eu queria a mim. Isso só porque me disseram que... Me disseram e eu ouvi que me disseram. Eu ouvi que eu disse a mim que a solidão era boa, era necessária. Eu ouvi de mim que encontraria na solidão a cura. "Ora, se é por alguém que se chora, o melhor é ficar sem ninguém", foi o que eu disse. Que me disseram. Foi o que eu ouvi. E agora, se foi... e de nada me adiantou a solidão. 

quarta-feira, 29 de agosto de 2012


             Perdi o toque, a sensibilidade. Perdi a vontade, o tom. Perdi as cores. E tudo isso achei que tivesse um dia. É como se o amarelo se descobrisse azul. E o branco se descobrisse todas as cores. É como a descoberta do sentido na alma do surrealismo. E ainda assim é como o nada mergulhado nele mesmo.
             Fora assim. E continua sendo, agora. Rio do que escrevo como se falasse comigo mesma. Como se eu própria me ridicularizasse. Pois nem da minha alma, que penso ser de fato minha, tenho piedade. Nem tanto sei mais como é olhar-se e sentir-se ou sentir coisa alguma.
            Há tempos não lembrava a sensação de ver o dedo correr atrás das letras dispersas pra transformar tudo quanto há em mim. Não lembrava que é sempre isso que me falta. Esquecera da vontade imensa, do anseio imenso, do quase vício de dizer o que não vejo, mas sei que está. E está em mim. E está vivo. E me percorre as veias tomando-me conta. A culpa é desse corpo que vive a ignorar a própria alma.
                 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Já quase via o amanhã nascer. Os raios de sol se abriam, se mostravam prontos. O sorriso que indica o amanhã, ele estava pronto. Ele estava ali aos poucos; ao abrir tímido dos raios-de-sol e sorriso... Mas era ainda hoje. E hoje não tinha sol. Hoje não tem sol. Hoje não é ontem, ainda. Hoje não TEM sol. A chuva cai e cai majestosa no rosto do hoje.


Saiamos, pois, na chuva pra quando chegarem os raios-de-sol e sorriso do amanhã, eles nos abracem e inundem e invadam e aqueçam.

Enquanto isso... "Deixa o amanhã (...) que o coração já quer descansar"


sábado, 23 de junho de 2012

E a gente achava que era brincadeira amar de verdade... 

         A rua estreita era preenchida pela ciranda das crianças e pelos risos soltos. Elas corriam, corriam, giravam até o mundo virar uma mancha colorida de tontura. Era bonito de ver os olhinhos brilhando tanto que dava pra pegar no ar a pureza dos corpinhos. Os pezinhos descalços, sujos de asfalto sustentavam a grandiosidade das almas pequeninas. Livres. 
         A ciranda era levada pelo menino. O menino mais bonito. Ele estava de um lado da roda. E a menina olhava pra ele bem de frente assim. Olho dela colado no olho dele pra prender ele pra sempre no olhar, pra prender ele pra sempre na cabeça. E mais que tudo, pra prender ele pra sempre no coraçãozinho de traços tortos que ela desenhou numa carta de amor que era pra ele. Era a carta-coração pra ele e só dele. 
         O menino olhava fundo a menina quando ela achava que ele nem notava nunca. Ele olhava lá, só percebendo o olhar da menina. Quando ele nem mais viu, a menina era dele toda. A cartinha de amor e o coração foram entregues e eram do menino só pra ele tomar de conta. 
         A menina queria dar a mão pro menino e fazer a ciranda de dois e deles. Ela queria toda a rua estreita pra eles. Juntinho olho dele e olho dela, mão dele e mão dela pra eles dois juntos assim rodarem, rodarem, rodarem e depois... rir só.

E de tanto querer se fez...

         A menina fechou os olhos como para conseguir acreditar que ele e ela estavam na ciranda um com o outro. Fechou forte e pediu pra estrela não deixar ir embora não. Ela segurou forte a mão do menino e gravou bem na fotografia a roda de dois só. Foi daí então que eles ficaram tontos que dói. Os pezinhos nem aguentavam mais aquela tontura estranha da ciranda. 
         Eles caíram e a tontura ficou e ficou e ficou. A menina disse que parecia que a ciranda não passou mais nunca.  
       Menino se foi lá pro fim da rua estreita onde a menina não pode ir. Enquanto isso a menina fica na calçada a chorar porque o menino não quer mais não brincar de ciranda.

E a tontura que não passa...

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O corpo meio bêbado de sono e cansaço, meio bêbado de rotina... e a alma meio bêbada de vontade de ser, de voltar ao que já fora. Os dedos meio bêbados procuram preencher a página em branco. E a bebedice do conjunto se traduz em palavras tortas. Se pra você faz sentido, não tenho culpa de seres bêbado assim. Se não faz sentido, tão mais bêbado és que nem mais nada consegues sentir. Nem mais nada faz sentido mesmo. E esse sou eu que nem a mim mesmo sei nterpretar. Sou eu que de tão bêbado nem mais nada sinto. E eu nem bem sei o que é que tudo quanto em mim se embriaga e tampouco sei dos porquês. Só sei o que acho. E nada é o que procuro. E nada é aquilo que cura a embriagues do conjunto que sou eu. Nada é o que me faz sentir-me e interpretar-me e entender-me. Nada é o que me faz viver em mim.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012


Você só precisa não estar só. Mas essas horas da madrugada são cheias de pensamentos insanos. E ninguém para te salvar deles. São os monstros da sua cabeça criando vida. E você os deixa tomar conta de você. Porque não consegue lutar contra eles sozinho. E até que a manhã chegue, você chora. Até que o sol apareça para começar o dia novo. Mas agora é só você com você e seus medos mais vivos do que nunca. Eu. Eu estou só, com você. Quando tudo o que nós precisávamos era não estar. Só.

sábado, 21 de janeiro de 2012


Primeiro dia de aula. O garoto não queria ir pra escola.  "Não, mamãe! Ninguém vai gostar de mim". Crianças podem ser cruéis, mas o garoto tinha medo de si mesmo. Sua mãe o abraçava e secava suas lágrimas doídas, incessantes. "Não tem como não gostarem de você, meu amor. É humanamente impossível." Mas o que são palavras? O que eram AQUELAS palavras, na verdade? Palavras de mãe desesperada querendo que o filho desça logo do carro pra evitar mais atrasos. Mesmo sendo palavras de mãe, não eram válidas. Não inteiramente.
         A mãe pegou sua mão, levou-o até a professora que aguardava no portão a chegada dos seus aluninhos mais que queridos, dos seus filhos não legítimos. Ela abaixou para recebê-lo. "Vamos com a tia. Vamos. Olha quantos amiguinhos ali dentro". O garoto hesitava. Estava menos resistente, porém. Mas o medo que sentia o fazia tremer. Ele tremia todo. Dos pés que mal sustentavam o corpo, à barriguinha e por fim, à ponta do seu nariz. Ele não entedia bem o porquê de tudo aquilo. Mas ele se sentia como um monstrinho. Um monstrinho que todos odiariam onde quer que ele fosse. Sua mãe aproveitou a deixa para se despedir com um beijo na bochecha e se foi de vez, correndo portão a fora.
A tia o guiou até a sala, onde outros amiguinhos esperavam ansiosamente pela primeira lição do ano. Ele se sentou enquanto a professora introduzia a aula. O garoto procurou pegar o caderno rapidamente pra evitar qualquer olhar pela sala. Prestou atenção na professora durante toda a aula. Não conversou com ninguém. Não olhou para ninguém. O seu medo dizia que ele não poderia se aproximar, não poderia fazer contato. Ele assustaria as pessoas. Portanto, obedeceu a seu tremor e se focou no quadro negro e em seu caderno e lápis.
O sinal tocou. Era a hora do recreio. As crianças corriam para o pátio enquanto o garoto assistia à movimentação tentado a fazer o mesmo, porém contido por pensamentos que o tomavam desde quando conseguia lembrar. "Você não vem?". Uma monstrinha de olhos pretos tocava seu ombro, interrompendo todos os devaneios da mente de uma criança. Ele tremia. E tremia. E tremia mais ainda. Tímido, ele respondeu: "E para onde você- para onde eu- pro pátio?". Ela puxou sua mão. "Vem, eu vou me esconder, você me procura, tá?" E ela já tinha ido. E ela se escondeu. E ele a procurava. Ela que o arrancara de seja-lá-onde-for. Ela que o fizera correr pelo pátio cheio. Cheio de gente que poderia não gostar dele. Ele que não teve medo. Ele que queria encontrá-la. E que assim o fez. Puxou-a de trás da pilastra e eles riram. Riram muito.
"Mamãe, ela é minha melhor amiga!!!!", ele dizia voltando da escola. Sua mãe carregava um sorriso de vitória. Não teria mais dificuldade alguma em deixá-lo na escola. O monstrinho não se sentia tão monstrinho mais. E falava de sua monstrinha a cada novo dia de aula. Eles eram mesmo melhores amigos. Ela o fazia tremer de um jeito bom. Não do jeito que o medo dele o fazia tremer, mas de um jeito bom. 
Eles seguiam juntos. Ao longo do ensino fundamental, no ensino médio. Eles seguiam sempre juntos. Ele a amava. Ela o amava também. Mas inexplicavelmente, aquele medo de muitos anos atrás surgia toda vez que eles se afastavam, toda vez que não se falavam, toda vez que ela parecia distante. E ele tremia de novo. E ela. Por mais que ela quisesse, por mais que ela dissesse, ela não alcançava esse medo. Ela não conseguia parar com essa tremedeira louca. E ela sofria junto com ele.
O medo o tomou. O medo o afastou de sua monstrinha, o afastou de si mesmo. O medo o afastou da vida. O medo não o deixou ver que o monstrinho que ele via era fruto da sua imaginação de criança. E o medo, acima de tudo, não permitiu que ele se visse e se amasse e se acreditasse. O medo não o deixou que se deixasse amar. E tudo que ele amou se foi pela incerteza que tinha de si, pela insegurança que carregava em cada passo seu. Pelo medo de não ser mesmo tendo evidências de que era. Pelo medo.