quarta-feira, 29 de agosto de 2012


             Perdi o toque, a sensibilidade. Perdi a vontade, o tom. Perdi as cores. E tudo isso achei que tivesse um dia. É como se o amarelo se descobrisse azul. E o branco se descobrisse todas as cores. É como a descoberta do sentido na alma do surrealismo. E ainda assim é como o nada mergulhado nele mesmo.
             Fora assim. E continua sendo, agora. Rio do que escrevo como se falasse comigo mesma. Como se eu própria me ridicularizasse. Pois nem da minha alma, que penso ser de fato minha, tenho piedade. Nem tanto sei mais como é olhar-se e sentir-se ou sentir coisa alguma.
            Há tempos não lembrava a sensação de ver o dedo correr atrás das letras dispersas pra transformar tudo quanto há em mim. Não lembrava que é sempre isso que me falta. Esquecera da vontade imensa, do anseio imenso, do quase vício de dizer o que não vejo, mas sei que está. E está em mim. E está vivo. E me percorre as veias tomando-me conta. A culpa é desse corpo que vive a ignorar a própria alma.
                 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Já quase via o amanhã nascer. Os raios de sol se abriam, se mostravam prontos. O sorriso que indica o amanhã, ele estava pronto. Ele estava ali aos poucos; ao abrir tímido dos raios-de-sol e sorriso... Mas era ainda hoje. E hoje não tinha sol. Hoje não tem sol. Hoje não é ontem, ainda. Hoje não TEM sol. A chuva cai e cai majestosa no rosto do hoje.


Saiamos, pois, na chuva pra quando chegarem os raios-de-sol e sorriso do amanhã, eles nos abracem e inundem e invadam e aqueçam.

Enquanto isso... "Deixa o amanhã (...) que o coração já quer descansar"


sábado, 23 de junho de 2012

E a gente achava que era brincadeira amar de verdade... 

         A rua estreita era preenchida pela ciranda das crianças e pelos risos soltos. Elas corriam, corriam, giravam até o mundo virar uma mancha colorida de tontura. Era bonito de ver os olhinhos brilhando tanto que dava pra pegar no ar a pureza dos corpinhos. Os pezinhos descalços, sujos de asfalto sustentavam a grandiosidade das almas pequeninas. Livres. 
         A ciranda era levada pelo menino. O menino mais bonito. Ele estava de um lado da roda. E a menina olhava pra ele bem de frente assim. Olho dela colado no olho dele pra prender ele pra sempre no olhar, pra prender ele pra sempre na cabeça. E mais que tudo, pra prender ele pra sempre no coraçãozinho de traços tortos que ela desenhou numa carta de amor que era pra ele. Era a carta-coração pra ele e só dele. 
         O menino olhava fundo a menina quando ela achava que ele nem notava nunca. Ele olhava lá, só percebendo o olhar da menina. Quando ele nem mais viu, a menina era dele toda. A cartinha de amor e o coração foram entregues e eram do menino só pra ele tomar de conta. 
         A menina queria dar a mão pro menino e fazer a ciranda de dois e deles. Ela queria toda a rua estreita pra eles. Juntinho olho dele e olho dela, mão dele e mão dela pra eles dois juntos assim rodarem, rodarem, rodarem e depois... rir só.

E de tanto querer se fez...

         A menina fechou os olhos como para conseguir acreditar que ele e ela estavam na ciranda um com o outro. Fechou forte e pediu pra estrela não deixar ir embora não. Ela segurou forte a mão do menino e gravou bem na fotografia a roda de dois só. Foi daí então que eles ficaram tontos que dói. Os pezinhos nem aguentavam mais aquela tontura estranha da ciranda. 
         Eles caíram e a tontura ficou e ficou e ficou. A menina disse que parecia que a ciranda não passou mais nunca.  
       Menino se foi lá pro fim da rua estreita onde a menina não pode ir. Enquanto isso a menina fica na calçada a chorar porque o menino não quer mais não brincar de ciranda.

E a tontura que não passa...

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O corpo meio bêbado de sono e cansaço, meio bêbado de rotina... e a alma meio bêbada de vontade de ser, de voltar ao que já fora. Os dedos meio bêbados procuram preencher a página em branco. E a bebedice do conjunto se traduz em palavras tortas. Se pra você faz sentido, não tenho culpa de seres bêbado assim. Se não faz sentido, tão mais bêbado és que nem mais nada consegues sentir. Nem mais nada faz sentido mesmo. E esse sou eu que nem a mim mesmo sei nterpretar. Sou eu que de tão bêbado nem mais nada sinto. E eu nem bem sei o que é que tudo quanto em mim se embriaga e tampouco sei dos porquês. Só sei o que acho. E nada é o que procuro. E nada é aquilo que cura a embriagues do conjunto que sou eu. Nada é o que me faz sentir-me e interpretar-me e entender-me. Nada é o que me faz viver em mim.